Ano passado a editora Estronho, especializada em publicações de terror, lançou a proposta de uma coletânea intitulada Le Monde Bizarre. O concurso consistia que as pessoas enviassem seus contos com uma temática circense criada pela editora, e torcessem para que a criação fosse escolhida e integrasse o livro. Como adoro um concurso (apesar de nunca ter ganho nem em bingo) decidi participar, porém minha vida não quis quebrar os padrões e não escolheram meu conto. Foi a primeira escrita de terror que eu tentei produzir, não ficou magistral como as criações de H.P Lovecraft (é até uma heresia eu mencionar ele em comparação ao meu texto), mas relendo o conto hoje decidi publicar, pois quarta é Halloween e também porque acho incrível ver a evolução que quando decidimos investir em algo que acreditamos. O texto foi intitulado "Doce bailarina", não é muito grande na minha percepção e mostra meu amadorismo incentivado pela alma da Agatha Christie. Quem quiser ler na íntegra clica ali no Mais Informações.
Doce
Bailarina
Os passos desesperados esfacelavam a grama do solo, a pegajosa
clorofila grudando entre os dedos de unhas pintadas, onde agora a
terra e os pedaços da vegetação rasteira acumulavam-se embaixo. Os
ruídos atrás dela aumentavam gradativamente. Ele estava chegando,
era a única coisa que uma vozinha maligna ecoava em sua mente. O
peitoral de ossos pequenos arquejava com força, as pupilas femininas
semicerradas para não encarar os raios de sol de fronte que lhe
queimava os olhos. Os passos se aproximavam.
- Você está me cansando, mocinha – berrou a voz masculina as suas
costas, quase entediada com aquele esforço não programado. O
coração da mulher saltou em seu peito, e uma ânsia de vômito
eclodiu em sua garganta, fazendo-a curvar-se para frente, numa
estocada brusca. Num ímpeto de angústia virou-se para trás, e
aquilo que seus ouvidos haviam percebido, seus olhos constataram com
certeza: ele estava chegando.
As imagens atordoantes que a velha cigana havia lhe descrito
apoderaram-se de sua mente apavorada, e não havia outra saída, ela
sabia disso desde que conseguira fugir, só adiou o inevitável. E a
mulher correu, desviando-se e seguindo desembestada para a esquerda
do terreno escarpado coberto de cascalhos.
O mágico Kranjkar parou durante alguns segundos, deliciosamente
surpreendido pelo rumo que aquele imprevisto havia tomado. Continuou
a perseguir sua fugitiva, mais pela diversão do “esporte” e para
ver de perto a mulher atirando-se morro abaixo, sem sequer hesitar, e
rolar pela colina íngreme tal qual uma boneca de trapos. Seu
corpanzil frágil espatifou-se de encontro aos pedregulhos na encosta
da elevação de terra; um líquido viscoso tingiu de vermelho a
coloração arenosa onde a suicida caíra.
- Você já foi mais sensata, Aramburu – destilou venenosamente
Kranjkar, lançando um olhar desgostoso dentro da tenda armada
precariamente, onde uma gorda cigana estava sentada sob almofadas
coloridas que jaziam atiradas no chão.
- Não requisite competência sendo que você próprio não a tem –
Aramburu esbravejou, o corpo robusto levantando-se, utilizando como
apoio o recosto de uma cadeira de madeira tosca. – O que falaremos
para Monsieur Tissot?
O tom de apreensão na voz da cigana foi compartilhado pelo circense,
que engoliu em seco ao pensar o que aconteceria nas próximas horas,
quando ele e a cigana chegassem até onde o comandante do circo Le
Monde Bizarre e o restante da trupe estavam acampados. Como o
circo não poderia ficar mais de alguns dias em qualquer cidade,
Serge Tissot havia enviado à experiente Aramburu e o sutil mágico
para ir buscando sua nova aquisição em terras africanas, preparando
a área em que o Le Monde Bizarre iria atrair o público local
com seus surpreendentes espetáculos.
A noite caíra e os roncos cavernosos da cigana enchiam a pequena
tenda em que ela dormira, e onde Kranjkar deveria igualmente
descansar, contudo aqueles ruídos inflamavam sua irritação, que
crescia em seu interior como labaredas de fogo a cada solavanco que
produzia a garganta da velha.
Aramburu era um tipinho desprezível para Kranjkar, tola e cujas
peripécias há muito haviam se perdido com a idade; até as
antiquadas moedas de ouro que a cigana tinha no lugar das órbitas
oculares, e que em sua infância encantavam o mágico, agora para ele
pareciam desbotadas. As pálpebras enrugadas e murchas da idosa que
pendiam molemente sob as moedas lhe causavam repulsa, e as
impossibilidades resultantes da cegueira da velha enfureciam a
personalidade jovem e altiva do homem. Irritado com aqueles roncos
ele saiu, estendeu uma lona de circo no chão e dormiu sob o tecido
desbotado, tendo como guardião de seus pensamentos monstruosos
somente as inocentes estrelas do céu, que nada podiam fazer para
impedi-lo.
O som dos abutres alvoroçados preenchia o céu nublado, os animais
cada vez em maior quantidade desciam em voos rápidos até os
pedregulhos na encosta do morro, a fim de abocanhar um pedaço que
ainda restasse do esmigalhado corpo da mulher. Kranjkar franziu o
nariz, enojado, imaginando o odor fétido que devia estar se
acumulando na planície, com o cheiro de sangue dela misturado ao de
podridão que acompanhava os pássaros negros em todos os lugares
sucedendo a morte.
O mágico adentrou na abafada tenda onde um improvisado quarto e
cozinha havia sido armado do modo mais precário possível. Uma
fumaça intensa rodopiava envolta de uma panela borbulhante; sentada
na frente da fogueira estava a cigana, cozinhando uma espécie de
ensopado cujos legumes já mostravam há muito sinais de podridão.
- Estou indo até a cidade a cavalo – sibilou Kranjkar em um
sussurro ligeiro, querendo se distanciar o mais rapidamente da mulher
coberta por gotículas de suor que percorriam seu corpo flácido.
- Traga uma mais baixinha dessa vez – foi o pedido da cigana, que
se ajoelhava no chão arenoso e mexia com os dedos de unhas compridas
sua sopa pegajosa. - Baixinhas são mais encantadoras e fáceis de
manusear.
Foi necessária poucas voltas pelas ruas até o mágico achar o que
procurava: parou em frente a uma padaria, onde uma jovem escondia-se
atrás de um balcão excessivamente alto para sua pouca estatura.
Devia ter no máximo 18 anos, suas feições delicadas e juvenis
demonstravam a inocência e beleza que o mágico procurava. Um sino
soou quando Kranjkar adentrou no estabelecimento.
- Bom dia senhor, em que posso ser útil? – perguntou docilmente a
mulher num inglês afetado.
- Gostaria de um refresco. Cavalguei até aqui durante vários
minutos, e nunca imaginei o calor infernal que faz nessa terra.
- O senhor deveria tirar seu paletó – disse, enquanto servia
limonada em um copo de vidro que havia colocado sob o balcão.
Kranjkar contentou-se em sorrir charmosamente e puxou com cuidado o
punho de sua camisa larga, cobrindo por completo sua mão direita.
Depois pegou o copo e bebeu seu conteúdo de um gole só, um
barulhinho estranho sendo escutado quando o vidro entrou em contato
com os dedos ocultos do mágico.
- Sou de um circo que está vindo visitar esses arredores, já ouviu
falar do Le Monde Bizarre? Tenho certeza que o que você verá
vai muito além de suas expectativas.
Definitivamente tudo que estava acontecendo ia muito além da
imaginação limitada pela ingenuidade de Doveine. A jovem moça
crescera naquela cidade e dali nunca havia saído. Agora ela estava
viajando para fora de sua amada cidade, indo em direção a sabe-se
lá onde, movendo-se dentro de um pequeno compartimento onde estava
presa, chacoalhando a cada salto brusco daquela maldita carroça
velha.
Lágrimas de desespero escorriam dos olhos claros de Doveine, que se
amaldiçoava por ser tão tola a ponto de ir com um estranho para
visitar um “circo”. E se ele a violentasse? Seu pai certamente
morreria de desgosto. E se aquela cigana a matasse? Depois da
dolorosa panelada que a velha transferiu na testa de Doveine, ela não
duvidava disso. Talvez fosse melhor que a matassem logo. Ao menos ela
não precisaria continuar naquela angústia infindável... Ai! Por
que ela acompanhara aquele homem?
Horas se passaram e quando a dor em sua testa finalmente diminuiu, a
moça conseguiu cochilar. Minutos depois uma claridade absurda a
acordou. Ela percebeu que haviam aberto a tampa da caixa em que a
prendiam e pode distinguir com um olhar embaçado pelo choro continuo
um irônico céu limpo e glorioso. Tentou desprender-se das cordas
grossas que lhe imobilizavam as mãos, porém a tentativa mais lhe
causou dor do que surtiu efeito, sentiu o ardor do atrito da corda em
sua pele queimar. Doveine soltou um suspiro sôfrego e voltou a
cerrar os olhos.
- Estão falando do desaparecimento de duas jovens de Joanesburgo.
Duas! O que aconteceu com a outra, Aramburu? – questionou friamente
Monsieur Serge Tissot, em uma fúria explosiva que avermelhou seu
rosto bem conservado.
- Pergunte a Kranjkar, senhor.
Serge Tissot virou-se para o mágico, que engoliu em seco. Olhou para
a bengala branca do dono do grupo circense e lembrou-se da última
vez que havia visto o Mestre usando tal objeto. O mágico mesmo que
havia limpado o sangue que coagulara naquele cano maciço.
- A moça fugiu e suicidou-se depois atirando-se de um monte. Mas não
acharão o corpo dela, porque os abutres comerão tudo. Eu mesmo vi
os animais arrancando-lhe a tripas e brigando pela carne mais macia
de suas coxas.
- E você acha que minha maior preocupação é se vão achar ou não
os corpos? Somos um grupo de circo, não uma quadrilha assassina. Dei
essa tarefa para Aramburu e você porque acreditei que sua
sensibilidade seria benéfica, e não que você sairia deixando as
mulheres se atirarem de penhascos. Faça o trabalho certo dessa vez –
ordenou Serge Tissot, num tom de voz glacial que gelou os ossos de
Kranjkar. Literalmente.
A planície em que a trupe circense estava armando suas tendas era um
terreno amplo com poucas casas nos arredores, que de tão distantes
pareciam pontinhos entrecortando a paisagem. Várias pessoas andavam
de um lado para outro carregando ferros, levando lonas nos braços e
arrastando pesados sacos de grãos pela areia do chão.
Kranjkar seguiu até uma pequena tenda rosa que já estava armada.
Ali dentro Doveine jazia deitada em um colchão. O mágico
encantou-se com a palidez doentia da moça, cuja pele agora parecia
de porcelana e reluzia sob os raios solares que entravam a em
filetes pelas pequenas aberturas na tenda. Doveine parecia ainda mais
docilmente frágil encolhida sob o fino colchão. Kranjkar puxou uma
cadeira e sentou-se em frente à moça. O ruído do objeto fez ela
acordar.
- Por favor, me tire daqui, eu preciso voltar para a minha família –
implorava a mulher, lágrimas rolando de seus olhos e pendendo em
seus longos cílios.
- Você fica ainda mais bela quando chora, suas pupilas ficam mais
cintilantes em meio a essa dramática melancolia.
- Vocês são uns anormais, excêntricos, não sei de quais
profundezas do inferno vocês saíram. Um homem com três olhos
apareceu aqui para vir me ver. Que tipo de brincadeira de mau gosto é
essa? – choramingou Doveine, que de tão alarmada com a aparição
daquele homem caíra desmaiada e só acordara com a entrada do
mágico.
- Ah, devia ser Ramil, ele é nossa principal atração indiana.
Deixe-me pegar um pouco de água para você, afinal não queremos que
morra desidratada – disse o homem finalizando a frase com um
risinho.
O mágico estendeu cortesmente um copo d'água para Doveine, contudo
ao vislumbrar a mão que lhe era oferecida, soltou o esgar de puro
pavor e empurrou o copo diretamente para o chão. Sua voz sumiu de
tanto berrar sua repulsa.
Nas mãos de Kranjkar não havia pele sobrepondo o esqueleto e a
carne, e somente alguns nervos pulsantes enlaçavam-se como cobras ao
longo dos ossos de seus dedos, o vermelho vivo quebrando o branco
acinzentado de seu esqueleto desnudo e poroso, o sangue correndo por
finas fibras que levavam vida a aquela fragilidade óssea.
- Sua aberração! Deus me abençoe! Deixe-me sair daqui, seu
anormal, bastardo, não toque em mim! Volte para o inferno e não
saia nunca mais de lá! – berrou a plenos pulmões Doveine, fazendo
o sinal da cruz inúmeras vezes num frenesi desvairado. Sentiu tudo
girar ao seu redor. Uma ânsia de enjoo subiu a sua garganta,
fazendo-a vomitar no colchão a sua frente.
- Sua imunda! Vou perdoar o que você disse, porque sei que não
estava completamente sã quando me ofendeu, correto? – sibilou
ameaçadoramente o mágico, os ossos de sua mão fechando-se em torno
de uma adaga que ele levava junto à cintura. – Ou você pode
descobrir que sei muito mais do que mágicas.
- O que vocês irão fazer comigo?
- Vou torná-la uma estrela. Há tempos que procuramos uma dançarina
à altura de nossa companhia circense, contudo nunca achamos uma
digna. Elas sempre acabam cometendo atos estúpidos, suicidando-se
com pedaços de vidro nas jugulares ou comendo alimentos podres até
morrerem de infecção. O que é um absurdo, pois não têm motivos
para isso. Mas você, minha querida Doveine, será uma pequenina diva
e todos a adorarão – o brilho obsessivo no olhar de Kranjkar
apavorou ainda mais a jovem. - Será uma doce bailarina.
A escuridão já havia se apoderado das paisagens desérticas e
vazias do campo. O vento gélido que soprava livremente por entre as
tendas retraia os músculos dos circenses, principalmente daqueles
que tinham menos direitos e jantavam ao ar livre, em grandes tábuas
sob tijolos improvisadas como mesas.
Na tenda rosa, Doveine tremia de frio, seu corpanzil magro sacolejava
a cada rajada de vento mais forte que adentrava por baixo do tecido
de sua armação. Aramburu apareceu segurando uma tigela cujo odor
fétido infestou a barraca, e Doveine concluiu que a própria cega
deveria ter cozinhado aquela gororoba. Enojada e desiludida com sua
situação, a moça atirou a tigela nas costas de Aramburu, quando a
mesma saia do recinto.
Com um tenebroso instinto animal a cigana voltou-se em fúria para a
direção de Doveine. Sem sequer tatear em meio aos poucos móveis
ali dispersos, suas mãos enrugadas não tardaram a fecharam-se em
torno do pescoço fino da jovem. Engasgando em sua própria saliva, a
mulher tentou empurrar o corpo gordo da cigana, mas nem o pânico
aumentou suas fracas forças. Desesperada, ela esticou o braço e
enfiou seus dedos no olho da velha, empurrando sua grossa moeda de
ouro para o fundo do buraco da órbita.
Aramburu urrou de agonizante dor, seus dedos lutando para tirar sua
tão adorava moeda daquele espaço, que agora latejava inflamando sua
pálpebra molenga. As unhas compridas da cigana arranhavam num
frenesi desesperado a mucosa de sua órbita, também fazendo o
sangue quente jorrar. Aproveitando a distração de Aramburu, a jovem
saiu correndo desembestada barraca afora.
O que seguiu a fuga de Doveine foi um caos infernal: a cigana ao
escutar os passos da moça em correria berrou a plenos pulmões o
acontecido, alertando o restante dos circenses, que saíram cada um
para um lado conveniente a fim de capturar Doveine.
Tendo a penumbra e a sombria ventania contra si, o corpo fragilizado
da moça capengava por entre barracas, mesas e cadeiras do circo,
cujas sombras da tenda principal, onde aconteceriam os espetáculos,
projetava-se fantasmagoricamente sobre as armações menores,
escurecendo ainda mais os lugares por onde Doveine tentava achar uma
brecha para escapar daquele inferno.
E parecia uma maldição que o próprio que havia lhe invitado para
esse seu novo destino, fosse o mesmo que o selaria: uma figura esguia
projetou-se silenciosamente das sombras e parou em sua frente, seu
casacão negro balançando contra o vento. E quando Kranjkar estendeu
sua mão para ajudar Doveine a sair de um buraco na terra onde havia
se escondido, a luz da lua iluminou os ossos de seus dedos, o branco
intenso faiscando seus contornos em frente aos apavorados olhos da
mulher. E foi como se a própria morte tivesse vindo buscar Doveine,
injusta e apressada sobre aquela doentia palidez que o luar insistia
em clarear. A moça desistiu de lutar no instante que os ossos de
Kranjkar contornaram seu pulso fino, a pondo de pé e envolvendo seus
ombros no que deveria ser uma demonstração de afeição do mágico,
contudo que fez o corpo da jovem tremer mais febrilmente, e não em
consequência do frio.
Havia sido uma tolice não ter feito isso antes, uma vez que a mulher
não tinha mais nenhuma condição de permanecer viva, e sua presença
somente resultava em confusões. Kranjkar sabia que encontrariam uma
que seria mais fácil de manusear e que Monsieur Serge Tissot acharia
de igual valia como a antiga. Ele só precisava fazer tudo com
descrição e calma.
Quando o circo havia passado pela Europa um inglês lhe “presenteara”
com um vidro de arsênico, e garantiu que surtia efeitos praticamente
imediatos. Quando o mágico fez o próprio homem beber o veneno
verificou a autenticidade daquela rapidez e sua eficácia.
Saiu de sua espaçosa e organizada carruagem e seguiu para a tenda
rosa, seus pés mal tocando a terra do chão temendo acordar algum
adormecido. Na silenciosa madrugada só se escutava os pios dos
pássaros alheios aquela monstruosidade. O mágico chegou ao local
visado sem que ninguém despertasse; sua vítima já estava dormindo
profundamente, cansada de todos acontecimentos turbulentos daquele
dia. “Eu colocarei fim a sua exaustão”, pensou Kranjkar vestindo
a pele de bom samaritano que achava lhe caber.
O mágico sequer teve que forçar a mulher a beber seu conteúdo,
pois seu sono era regido pelos ruídos de sua boca aberta. Foi
necessário algumas gotas de arsênico para que seu intento fosse
alcançado e o líquido escorreu pela sua garganta suavemente,
calando para sempre os roncos cavernosos da cigana Aramburu.
Monsieur Tissot pensou em chamar um médico para averiguar a causa da
morte da velha cigana, contudo o médico mais discreto de Joannesburg
era um velho conhecido seu, um senhor de 70 anos que havia feito o
parto de uma circense sua anos atrás, e Serge Tissot estava presente
na ocasião. Sendo assim o dono da companhia Le Monde Bizarre
achou melhor não correr riscos, ao passo em que os cabelos do médico
estavam grisalhos e sua pele coberta de rugas, enquanto Monsieur
Tissot mantinha uma assustadora jovialidade. Concluíram que Aramburu
devia ter morrido de velhice ou envenenada por alguma das porcarias
que ela própria cozinhava.
A trupe circense iniciara a divulgação do espetáculo naquele dia,
espalhando pelas redondezas cartazes de cores vibrantes, com pinturas
de sorridentes palhaços, trapezistas em suas malhas estampadas e os
cartazes mais atuais da companhia. Os mesmos apresentavam um grupo de
pequeninas bailarinas com saias de tutu rosa circundando as cinturas
magras das mulheres baixinhas, suas feições apresentando uma
bizarra felicidade caracterizada por seus sorrisos forçados e os
olhos vidrados de terror.
Chegara o momento de Doveine tornar-se a estrela de um dos shows da
companhia, e o orgulho de Kranjkar tomaria forma até o final do dia,
quando os procedimentos necessários para que a mulher se tornasse
uma dançarina estaria concluído. A jovem surpreenderia todo a
plateia que marcaria presença nas arquibancadas sombrias do circo
nas próximas noites.
Na tenda principal do circo, seis pequenas mulheres ensaiavam passos
de ballet. Todas movimentavam-se de modo desengonçado e tosco, e a
cada minuto uma delas tombava para o lado, caindo de borco no chão
arenoso sujando suas sainhas de tutu. Um assistente do grupo tinha
que ajudá-las a se levantar, porque, por alguma razão, ficar ereto
parecia ser um verdadeiro sacrilégio para aquelas mulheres. Caretas
de absoluto desconforto e dor eram produzidas quando suas pernas
tinham que sustentar todo o peso de seus corpos.
Doveine estava sentada em cima de uma cama, em um compartimento onde
os circenses escondiam-se do público antes de chegar sua hora de
apresentar-se e dos holofotes e luzes iluminares seus rostos. Contudo
naquele instante o toldo estava erguido e a moça podia observar as
bailarinas ensaiando um show que ela própria faria parte em poucos
dias. Mas havia algo errado naquelas mulherzinhas, no modo em que
elas caminhavam, na altura de seus troncos comparada a de suas
pernas...
- Não se preocupe, o procedimento é muito simples – começou a
esclarecer amavelmente Kranjkar, notando a confusão de Doveine ao
observar suas futuras companheiras. – Nós serraremos sua perna,
mais ou menos, quatro dedos acima de seu pé, de modo com que
tenhamos uma região fina para inserir as sapatilhas de ballet e que
sua mobilidade seja preservada, sem sua altura continuar sendo um
empecilho. Você será nossa bailarina mais bela, mais doce, um
verdadeiro encanto para a plateia. Se você desejar podemos enviar
seus pés para a padaria do seu pai, acredito que ele achará uma boa
recordação da sua linda filhinha...
E então Doveine percebeu uma marcação que havia sido feita em suas
duas pernas com tinta, na região acima de seu pé descrita pelo
mágico. Pousando em um canto da tenda estava uma afiada serra, seus
dentes virados para frente permitindo que a moça os vislumbrasse com
tanta clareza que podia senti-los rasgando-lhe a pele e estraçalhando
seus músculos. Seu coração disparou em batidas desesperadas, a
imaginação de seus ossos se quebrando ao entrar em contato com
aquela ferramenta... e o sangue lhe desceu da cabeça,
empalidecendo-lhe de tal forma que ela sentia-se sem vida, morta pela
angustia acumulada que lhe eclodiu na garganta ao percebeu seu
fatídico destino.
Os berros de Doveine foram escutados por todos circenses que
terminavam os preparativos para a abertura do circo nos próximos
dias, o que fez a figura de Monsieur Tissot voltar-se contra o
histerismo da moça. O Mestre lançou-lhe um olhar de profundo
desprezo e fechou sua mão no cabo da serra, empunhando no alto a
ferramenta com firmeza. O dono do circo mandou Kranjkar descer o
toldo da tenda e pegar um vidro de éter. Doveine não compreendeu
nada, contudo gritou ainda mais alto e o excesso de lágrimas a
cegou. Antes de contorcer-se e desmaiar sob a cama, ela ouviu a voz
grave de Serge Tissot ordenando:
- Quieta! Não vê que suas colegas estão ensaiando



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